Para estimar a inflação, instituições como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Bureau of Labor Statistics (BLS) dos Estados Unidos enfrentam um desafio recorrente: como medir a variação de preço de um produto que mudou significativamente ao longo do tempo?
Se um computador novo em 2025 custa aproximadamente o mesmo que custava dez anos antes, mas possui um processador dez vezes mais rápido, capacidade de armazenamento cem vezes maior e bateria com o dobro da duração, não seria adequado concluir que seu preço permaneceu constante. Essa comparação ignoraria que o consumidor passou a receber um produto substancialmente melhor pelo mesmo valor, superestimando a inflação.
A solução adotada por esses institutos é o chamado ajuste hedônico. Em vez de comparar apenas o preço nominal, o método procura isolar o valor de cada atributo do produto, como desempenho, velocidade e capacidade, estimando o preço de uma unidade constante de qualidade ao longo do tempo.
O gráfico desta semana ilustra o efeito prático desse ajuste para eletrônicos nos Estados Unidos. Segundo o BLS, os preços de televisores, telefones e computadores caíram mais de 90% desde dezembro de 1999, refletindo, em grande medida, os avanços tecnológicos que elevaram significativamente a qualidade desses produtos, ainda que seus preços nominais na cesta de consumo das famílias tenham permanecido relativamente estáveis.
O ajuste hedônico também pode ser útil para analisar a incorporação de novos modelos de inteligência artificial. Como discutido na edição da semana passada, as despesas corporativas com LLMs continuam crescendo apesar da queda no custo por token. Quando novos modelos oferecem ganhos expressivos de capacidade, mas também demandam maior volume de processamento, torna-se fundamental distinguir o preço pago da qualidade efetivamente entregue.

